Trabalhar é sujar as mãos?
Sempre que penso em trabalho, penso em minhas mãos, pernas, tronco, cabeça, tudo trabalhando fisica e literalmente pra executar um serviço. Desde sempre, trabalho pra mim é isso. Ia pra firma com meu pai desde os 13. 6h30 já estava na firma tomando café da manhã com a peãozada (cerca de 5 caras). Era gostoso! Café com açúcar, pãozinho fresco e crocante com margarina, às vezes ovos e bem de vez em quando um dos abençoadas fritava carne de bode pra gente. Às 6h30 da manhã! Era muito legal! Nessa idade eu tava ampliando meus horizontes sociais e nem sabia, né? Com 13 vc vai à escola, tem os amiguinhos e já era. Estar cercado de adultos trabalhando era outra parada. Os papos, a dinâmica, a tiração de sarro entre eles... Mas principalmente o que moldou minha noção de trabalho era esse cotidiano: graxa, cavaco de ferro, uniforme sujo, cortes leves nos dedos causados quando ia esmerilhar a rebarba de ferros chatos que tinham acabado de sair do corte. Eu fazia esses servicinhos menores lá. Trabalhar tinha um cheiro. De suor com graxa - graças aos anjos a graxa sobrepunha all over the CC. Conforme fui envelhecendo minhas funções mudaram na firma. Em determinado período fui o pintor, noutro, soldava, e claro que teve o ponto que todas essas funções se misturaram. Foi uma grande faculdade! Sobre aguentar firme, criar coisas à partir da matéria prima. Literalmente cortar barras de ferro, soldá-las em posições corretas, dar acabamento, montar as outras peças, fazer a parte elétrica, ligar, ver algo mecânico tomar vida - e ter participado desse processo em várias etapas é muito legal! Envelopa-se a sensação de trabalho concluído. Você se encaixa. Hoje em dia meu trabalho não tem a facilidade da mecanicidade. O comércio é muito diferente da indústria. O trabalho não tem mais cheiro de graxa. Eu uso minhas mãos pra colocar livros em sacolinhas e entregá-las pros clientes, e o máximo de dano físico é... Bem, não tem! Isso aqui definitivamente não é trabalho - não como eu aprendi lá na infância. Dá trabalho, mas, porra?! Viver num mundo todo colorido, totalmente ao contrário do cinza escuro dos ferros, escutar música, ficar sentado emitindo nota fiscal, conversar, recomendar, indicar, enviar e-mails?! Quê qué issssssso! Piece of cake! Aí me balanga a cabeça e me tira do eixo do que é trabalho. Hoje é mais intelecto do que músculo. Me dá um pouco de vergonha, sabe? Antes parece que eu trabalhava de verdade, hoje eu só me divirto. Todas as auguras ficam fáceis quando se compara os dois tipos de trampo. As satisfações também são diferentes, o ego fala muito mais alto por aqui do que lá na firma. Mas sei lá. Acho que é isso né. O verde só é bonito porque tem o roxo pra contrapor e assim por diante as coisas vão se encaixando. De forma matemática. Mecânica.
Pronto!
Azul com Amarelo dá Verde e não me engane disso, maldita teoria!
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